A Casa das Máquinas de Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri e suas máquinas



Casa das Máquinas (Rio de Janeiro: Editora da Palavra, 2011) é o livro de estreia de Alexandre Guarnieri. Poeta e arte-educador carioca, Alexandre apresenta-nos uma poesia marcada por um intenso labor estético-descritivo, explorando as inusitadas possibilidades e rearranjos da linguagem. A seguir, apresentamos uma conversa com o autor, na qual discorremos sobre seu livro e sua poética.



Adriano Lobão Aragão - Casa das Máquinas é um livro organizado a partir de uma temática bem definida. Pode-se dizer que se configura como uma verdadeira engenharia verbal. Como surgiu esse livro-máquina?

Alexandre Guarnieri - O Casa das Máquinas aponta para uma mixagem de muitas das minhas referências culturais da adolescência: a ficção científica, as histórias em quadrinhos, as imagens da Revolução Industrial, as vanguardas artísticas da virada do século XIX para o XX (coroadas com a magnífica produção cinematográfica do filme Metropolis, de Fritz Lang, homenageada na capa do livro [cogitei igualmente usar um fotograma do filme Tempos Modernos, do Chaplin]). A promessa de um mundo maravilhosamente automático sempre me pareceu uma armadilha perigosa e parte dessa crítica consta tanto em Isaac Asimov quanto nos Jetsons! Lembro de ter sido tomado por uma verdadeira paixão pelo tema logo depois de ter escrito o primeiro poema do livro, chamado "3/ três engrenagens", que nasceu como um poema-objeto feito com papel vegetal e acetato (nunca foi de fato construído, mas teria sido em metal e acrílico). A temática me pereceu estar muito integrada às minhas escolhas pessoais, meu caminho técnico, enfim, todas as experiências com que tive contato no campo da experimentação poética, dos irmãos Campos ao Arnaldo Antunes, passando pelo Gullar neoconcreto e seus livros-poemas, o poema-processo, o poema-práxis, Mário Chamie e Wlademir Dias-Pino, pelo E.M. de Melo e Castro. Penso que busquei de alguma forma incorporar no Casa das Máquinas a lógica dos livros-poemas. Mas a escolha pelo foco textual (sobre o plástico e visual) foi consciente, sob a égide das estéticas de João Cabral de Melo Neto, Francis Ponge, Mauro Gama, do Gullar (agora o anti-concreto), entre outros mestres. A ideia de um tema central estruturando tudo sempre me pareceu o caminho lógico a seguir. Justamente por isso levei tanto tempo organizando o livro, mais de 15 anos desde a primeira versão daquelas "três engrenagens" (de 1995). Anos depois, em 2001, chegou a existir uma versão presumidamente definitiva do livro, quando Mauro Gama redigiu seu posfácio. Mas essa versão contava com um capítulo inteiro forjado a partir de 20 frames de um poema em vídeo, chamado "CiClotron" (que mostrei na minha dissertação de mestrado, preferindo à época, chamar de "poema cinético", só com palavras movimentadas sobre fundo branco, ao invés de vídeo-poema, conceito que circulava, onde quase sempre coexistiam imagens filmadas e palavras, superpostas). O aspecto atual do livro, com esse capítulo substituído pelo módulo entitulado "Urbi et Orbitron", seguiu justamente a operação de limpar o terreno, separando o eminentemente visual do puramente textual, muito embora no projeto gráfico tenha buscado homenagear muitas das experiências que citei, incorporando à capa uma chave liga/desliga, numerando estrofes como num flipbook, decalcando pequenas figuras. Existe muita carga oriunda do universo das artes plásticas no livro (Magritte, Duchamp, Tinguely, Palatnik, entre outros). É óbvio que ao longo desses 15 anos fui escrevendo outras coisas bem variadas, mas me parecem complicados os anos que terei pela frente na organização temática de um próximo trabalho que venha a publicar. Chegar a um resultado similar ao dessa Casa das Máquinas é algo que pretendo perseguir. Espero que os anos que esperei para lançar meu primeiro livro se reflitam no reconhecimento dos leitores dessa "engenharia verbal" (que você citou na pergunta), muito embora não espere ser apreciado pelos mais conservadores, nem pelos mais "radicais". Fiz o que estava ao meu alcance, com as ferramentas que dispunha, e adoraria ter fôlego no futuro para mais uns quatro livros (quem sabe).


Adriano - Por que tantas epígrafes, citações, no livro?

Alexandre - Penso que procurei construir para mim mesmo um mapa do meu próprio paideuma, gostei tanto de contemplá-lo que acabei por incorporá-lo ao livro... parte das epígrafes eu havia colecionado no processo de escrita mesmo, ao longo destes anos em que fui forjando o aspecto final desta Casa das Máquinas, parte busquei depois da estrutura pronta. Eram nomes que eu precisava homenagear, com os quais eu queria muito dividir a aventura que foi para mim o processo todo... queria dar aos leitores a oportunidade, ainda que de forma muito passageira, de tomar contato com esses nomes, ligados às minhas escolhas técnicas e estéticas no campo da poesia. As epígrafes representam também anotações do caminho (uma intertextualidade explícita), como as incrições na cela de um prisioneiro, salmos, frases, datas, riscos, como os recortes colados nas paredes sujas da oficina mecânica, cartaz de mulher nua, manchas e impressões dos dedos de graxa, "ruídos limpos" com os quais busquei extrapolar os limites do livro, um olhar para fora, como janelas abertas, revelando (sob a minha própria lente, tentando não perder o foco no campo semântico do livro) parte das paisagens descritas por outros poetas. No projeto gráfico, seguindo uma sugestão do autor das orelhas do livro, o poeta gaúcho Marcus Fabiano Gonçalves (bastante homenageado no livro), optei por posicionar, além das figuras e títulos, também as epígrafes à esquerda, nas páginas pares, poemas à direita, nas ímpares, o que me pareceu funcionar muito bem.

Adriano - Há uma arquitetura do livro, fisicamente falando, que dialoga diretamente com o tema evocado ao longo das páginas, conforme você mesmo comentou. Há também alguma influência das histórias em quadrinhos nessa arquitetura verbo-visual?

Alexandre - Sim, claro que há. Sempre encarei com bastante reserva livros de poemas ilustrados, porque vi e tenho visto muita associação pobre e gratuita entre imagens e palavras (inclusive em vídeo-poesia), muito embora o Surrealismo tenha proposto um descolamento entre as coisas e seus discursos (o que nem sempre vem a ser o caso). Para a matriz que escolhi no livro, precisei tratar com o máximo cuidado a inserção das imagens, criando um nexo funcional (longe de ser surreal) que enriquecesse a experiência da leitura, e consequentemente fosse de serventia fundamental para o projeto gráfico em si (o livro não seria o livro sem as imagens). A idéia de um catálogo de pequenas coisas, a realização de um micro-inventário visual integrado ao universo do livro foi o que planejei. Meu primeiro contato com a produção literária se deu através das histórias em quadrinhos, a linguagem instigante das formas, dos quadros e balões (ah, e das oonomatopéias!) me arrastaram do mundo dos dos desenhos para o mundo das palavras (que são também desenhos), desde a minha infância. Há muitos pontos de contato entre a escrita ideogramática (e caligramática) e o universo das hqs. Me interessava muito como um autor modulava o fluxo de leitura ordenando campos e superfícies nas páginas, como numa partitura espacial, dirigindo o olhar do leitor, programando um padrão de busca e decodificação em lógicas internas específicas à cada história e necessidade narrativa. Nos anos 90, tive a chance de me aproximar de alguns autores dO poema-processo e lembro como foi emocionante a ida à casa do falecido Álvaro de Sá (que lançou, inclusive, um livro chamado "Poemics", de 1991), folhear um dos raríssimos exemplares (merecia um fac-símile, uma edição de luxo!) do livro "A Ave" (de 1956), de Wlademir Dias-Pino. É muito coerente que a poesia visite as hqs e vice-versa! Para aproximar mais ainda o "Casa das Máquinas" dos quadrinhos, eu diria que o livro tem uma inteligência sequencial básica, tanto nos primeiros poemas, individualmente (os que estão explicitamente numerados), quanto na estrutura maior. Trata-se da proposta de uma grande montagem, um encadeamento que parte de peças menores (miúdas naturezas-mortas) para a construção de uma grande metáfora do funcionamento (um "anti-deus-ex-machina"?). Quem sabe se não foi essa a lição da maquinação (de imagens que colaboram para textos que colaboram para novas imagens) que aprendi com os gibis mais fantásticos da minha infância?

Adriano - Há um mudança significativa nas últimas partes de seu livro, onde, ao que parece, a máquina é também o próprio homem e suas relações sociais. É isso?

Alexandre - Como tema explicitado, sim, você tem razão, isso se verifica mais diretamente numa leitura dos dois capítulos finais, muito embora uma temática humana (da falência, da entropia, dos processos de deterioração, dos defeitos e desajustes) esteja presente metaforicamente desde os poemas iniciais. Mas existe de fato uma progressão que parte das pequenas naturezas-mortas (de peças e partes soltas), as conecta nas máquinas das fábricas e mergulha no humano (na "graxa" do humano, sendo através das relações com a cidade e a violência urbana, com o trabalho, ou mesmo as relações interpessoais) e os transcende numa maquinaria maior, quiçá cósmica (em "daemon-endo-machina" ou em "blecaute", por exemplo).

Adriano - O livro é todo ilustrado quase todo com imagens que remetem ao universo das máquinas, mas, próximo ao final, encontramos a figura de ouroboros e até mesmo um símbolo, ao que parece, maçônico, além de outras místicas e místicas no corpo do poema. Seriam mais referências a essa "máquina cósmica" mencionada?

Alexandre - Exato, Adriano. As imagens do Ouroboros sempre me fascinaram muito porque justamente apontam para a infinita capacidade de renovação, de fecundidade, de eterno retorno, de reinterpretação do mundo, da aquisição de renovadas chaves de entendimento e codificação da realidade e da criação, e acabaram representando, quase no final do livro, meus próprios votos de perpetuação para os próximos trabalhos, o constante contato com a linguagem e o compromisso de renovação poética. O moto-contínuo sempre foi uma promessa para a construção de uma espécie de máquina dos sonhos, cujo funcionamento fosse perpétuo e perfeito, que vencesse, portanto, toda perda de energia, todo o atrito, toda a entropia, e é obviamente um sonho da alquimia. Outros poemas apontam para esse universo dos símbolos mágicos, das parábolas mitológicas e alquímicas, em catálise pesada "uma receita secreta [para transformar chumbo em ouro!] teria sido cifrada, por séculos, na maçonaria", na "pedra fundamental" há uma alusão à pedra cúbica (um símbolo maçom; outra pedra, a filosofal, seria necessária para obter o elixir da longa vida, a imortalidade, ou seja, ainda o moto-perpétuo), "o ninho de Ouroboros desenterra-se" em "mineração", as figuras de Hermes e Thor dialogam musicalmente em "cosmogonia sonora [...]", e tem mais (mas que os leitores descubram)!

Adriano - E quais os próximos passos do poeta Alexandre Guarnieri?

Alexandre - Bem, eu não tenho escolha senão seguir escrevendo, é meu vício, minha necessidade, boa parte de minha vida é ler e escrever. Espero continuar descobrindo novos poetas e artistas que me inspirem com seus trabalhos, que me alimentem, que me deem a chance de conhecer seus mundos, por díspares ou similares aos meus, que são muitos, como os de todos nós. Penso que criar qualquer coisa que seja nesse mundo é lutar no front menos guarnecido (sem fugir do corpo-a-corpo) contra a angústia da alteridade, contra o vácuo abissal do precipício mais sinistro. A baioneta mais eficaz é a da criatividade inquieta e insatisfeita. As satisfações nos estagnam, nos oferecem oásis de inércia, e, ainda assim, é uma satisfação criar algo que dê algum orgulho, mesmo que momentâneo! Quem sabe se meu próximo livro já não está sendo gestado para daqui há uns 2 anos? Enquanto isso, vou precisar de quem quiser me ajudar a divulgar o Casa das Máquinas (que foi uma aventura e tanto!), divulgando também aqueles em quem acredito, os companheiros na batalha das palavras, presentes e vindouros, com o apoio daqueles que amo e que me permitem amá-los.


[Parte dessa entrevista foi publicada no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 14 de março de 2012]

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